Ganhar metade, viver o dobro

Viver o dobroHá muitos anos, numa reincidente fuga da rotina profissional, eu e a Ana descobrimos no Parque Natural do Alvão a pessoa que defendeu a ideia que serve de título a este post. A partir desse momento, a expressão nunca mais nos saiu da cabeça – tornou-se um farol que orienta a nossa navegação pela vida.

Quem é, então, esta pessoa capaz de nos marcar com tão poucas palavras? Infelizmente, já nem sei o seu nome. Perdeu-se no meio das memórias, como tantos outros encontros fortuitos e conversas espontâneas, e na altura nem pressenti a importância que este momento viria a ter nas nossas vidas. Sei apenas que era um engenheiro informático que tinha deixado a empresa, no Porto, para se instalar com a esposa nesta região montanhosa junto a Vila Real. No momento em que o vimos, estava a cavar um terreno como qualquer outro agricultor transmontano, mas o facto de nos ter desvendado esse detalhe da sua vida abriu a porta a uma pergunta inevitável: “O que o levou, afinal, a deixar a vida e o emprego no Porto para vir para o Alvão?”; ele não hesitou: “sabe, eu aqui ganho metade mas vivo o dobro”.

Já devem ter adivinhado porque recupero agora esta história.
O momento de paragem e confinamento forçados que estamos a atravessar quebrou-nos repentinamente a rotina, mostrou-nos outras atividades, obrigou-nos a viver com a ausência de horários ou, pelo menos, sujeitou-nos a horários bem diferentes daqueles a que estávamos habituados. Com o tempo a ser vivido de outra forma – mais conversa e brincadeiras com os filhos, mais arrumações nos armários lá de casa, mais vontade para fazer exercício, ir à praia ou ao campo em longos passeios, mais e melhores conversas (ainda que remotas) com amigos e familiares, e, sobretudo, mais horas disponíveis para pensar na vida – muitos terão chegado também a interrogações pertinentes: porque é que tenho andado tão distante dos meus filhos? Porque juntei tanta tralha inútil? Porque é que passei tantos sábados no shopping e tão poucas horas numa caminhada no areal? Porque gastei tanto dinheiro em coisas tão inúteis, quando agora tenho de contá-lo para o essencial? Se nestes dias chegou a alguma destas perguntas, está de parabéns.

Não me considero uma pessoa com faculdades especiais ou discernimento acima da média, mas reconheço que possuo umas poucas ferramentas que têm ajudado a encontrar bons caminhos na vida: capacidade para me questionar a qualquer altura, humildade suficiente para absorver exemplos que me podem ajudar, sentido de independência para decidir pela minha cabeça – sem ceder a pressões ou convicções alheias – e, mais importante de tudo, uma indomável vontade de ser feliz.
Foi por causa deste kit de ferramentas que me casei, decidido, aos 23 anos; que me tornei repórter independente aos 26 (renunciando a um emprego “seguro” e ao embrutecimento passivo do tráfego automóvel) e aos 42 fui viver para uma aldeia transmontana, no meio de uma paisagem que me pacifica e dá esperança – que me faz viver o dobro. Em todas estas decisões houve tanto de análise pessoal amadurecida quanto de vozes e pressões para deixar as coisas como estavam. Balanço? Não estou minimamente arrependido das escolhas que fiz e sinto-me, precisamente graças a estas, uma pessoa muito feliz.

Mas não quero tornar esta crónica numa espécie de biografia apoteótica. O meu percurso tem o contexto próprio das circunstâncias individuais – boas e más – e não é, por isso, uma receita mágica replicável nem um guião que outros possam seguir na esperança de obter resultados idênticos (que, mesmo assim, seriam percebidos de forma tão distinta quanto a personalidade dos candidatos). Com este texto, apenas ambiciono ajudar outros a refletirem nas suas vidas tal como eu sempre me obriguei a refletir na minha. De resto, parece-me que esta inesperada pandemia nos concedeu o tempo necessário para essa análise. E o tempo, acreditem, é o bem mais precioso colocado à nossa disposição.

Se eu recuar, por exemplo, a 1995, quando comecei a ponderar trocar um emprego com vencimento bom, ajudas de custo e perspetivas de continuidade, por uma vida incerta como repórter freelance, tenho de apontar pelo menos três catalisadores que me levaram na direção certa: as inúmeras caminhadas de reflexão junto ao mar, tantas vezes no intervalo do almoço (em fato e gravata); o apoio incondicional da Ana (cuja companhia se deveu a outra decisão acertada, tomada 3 anos antes); a capacidade de escutar com atenção outros exemplos que me poderiam orientar.
Sobre este último aspeto, houve uma conversa com um amigo (que era repórter freelance) que foi particularmente decisiva. Um dia, fui jantar a sua casa e ele perguntou-me: “então, sempre queres ser freelancer? Vem aqui comigo.” Segui-o até à cozinha e ele abriu o frigorífico: “vês? Não me falta nada, pois não?”. E, de facto, o frigorífico estava recheado… mas onde é que ele queria chegar? Foi então que começou a desenrolar a lista de coisas de que tinha abdicado (com a exceção demonstrada dos alimentos) para enfrentar uma vida tão apetecível mas tão incerta como a de repórter independente – dezenas de coisas dispensáveis que custavam o mesmo dinheiro que ele necessitava agora para alimentar, literalmente, o seu sonho. Mesmo sem a tal frase presente, ali estava outra pessoa a dar-me a mesma lição: “ganhar metade, viver o dobro”. Fui para casa e comecei logo a trabalhar na minha própria lista.

Não, não é possível ter tudo, em quantidade, a toda a hora e, ainda por cima, querer ser feliz. Há escolhas a fazer: queremos ser felizes ou ganhar muito dinheiro? Mesmo aqueles que ganham muito bem – e para quem tantas vezes olhamos num misto de ambição e inveja – têm de sacrificar demasiado tempo, perder bons momentos com a família e amigos e abdicar de uma grande dose de paz de espírito; trata-se, pois, de uma espécie de venda de alma ao diabo. Mas será que as casas e carros que estas pessoas compram se traduzem realmente em felicidade, ou são apenas uma imagem distorcida e volátil de medir o sucesso financeiro? Isso serve-lhes? Compensa? Pode ser que sim… nós não ambicionamos todos as mesmas coisas nem a felicidade é uma bitola universal. Ou então, pode ser que eles estejam em negação das evidências, até um dia serem obrigados a reconhecer o que é realmente importante… talvez tarde demais, quando já nem a maior das vontades de mudar encontra tempo para ser executada.

Mesmo sem falar nos que são particularmente abastados, seria fácil enumerar a miríade de objetos, pacotes de serviços e futilidades dispendiosas em que o cidadão comum está hoje mergulhado, praticamente sem se aperceber. Trabalhamos mais para ganhar mais… para depois comprar o que não precisamos. Dizem que é a economia. E que a economia se baseia no crescimento económico. E que o crescimento económico só se consegue pelo aumento do consumo. Mas como estou ciente que todo o consumo é feito à custa de matérias-primas, que as matérias-primas provêm de recursos naturais e que os recursos naturais são finitos, contraponho, sem hesitações nem pesquisas adicionais, que a persistência neste caminho só pode levar ao nosso próprio fim.

E é por isso que vejo na atual pandemia um lado sublime. Tudo o que os cientistas pediram durante décadas, em prol da sustentabilidade do planeta, parece ter sido conseguido em poucas semanas por um simples vírus: repensar a economia, o meio-ambiente, a forma como vivemos, tanto em sociedade como a nível individual.
Como vamos evoluir a partir daqui é ainda uma incógnita, mas há uma certeza que não devia ser novidade para ninguém: a mudança de uma sociedade começa pela mudança do indivíduo.

De quanto precisamos mesmo para viver? O que é realmente essencial? O que dá mais sentido às nossas vidas? Se calhar, é mesmo possível viver o dobro ganhando só metade*. Pensem nisto. Comecem já a trabalhar na vossa lista.

* Há uns tempos a Ana introduziu uma pequena alteração no lema original e criou um blog intitulado Gastar metade, viver o dobro. Os resultados são parecidos, já que gastar metade é a consequência natural de ganhar metade.

3 opiniões sobre “Ganhar metade, viver o dobro

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