A pátria de vulcano, capítulo 10.959

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Uma equação e mais 3 coisinhas, para não demorar

Nestes dias, basta-me olhar para o carvalhal que tenho em frente às janelas para saber que há algo de profundamente errado. Boa parte destas árvores estão com a folhagem castanha e seca desde meados de Agosto. Tecnicamente, chama-se a isto stress hídrico – um sinal evidente da falta de água continuada.

Numa viagem recente que me levou de Bragança à costa algarvia, pude observar novecentos quilómetros de paisagem em estado desolador. Até plantas tipicamente mediterrânicas, como a esteva, encontram-se como nunca as vi: folhas secas, retorcidas pelo calor, em extensões intermináveis. Também muitos sobreiros, desde Trás-os-Montes às serras do Algarve, passando pelos característicos montados alentejanos, estão a ficar secos… ou doentes, devido à seca.
De volta a casa, num périplo pelos principais rios que atravessam esta região – Baceiro, Sabor e Tuela – vejo caudais dramaticamente baixos, como nunca estiveram nos 7 verões que aqui levo ou, pior, como nunca viu quem sempre aqui viveu. E já não falo nos ribeiros mais pequenos, que estão agora reduzidos a meras valas sem gota de água.

Muitos pensarão: “pois, é o grande problema do interior… seco e desértico”. Mas desenganem-se: Baceiro, Sabor e Tuela fazem todos parte da bacia hidrográfica do Douro, alimentando-o para todas as utilizações que lhe damos: regadio, produção de eletricidade em várias barragens, água para consumo humano em todas as cidades do Grande Porto, etc.
E o Tejo vai ainda pior, com pouca água e cada vez mais poluída – “moribundo, tanto no lado espanhol como português”, como descrevia um artigo recente do El País.

E enquanto tudo isto acontece…
– Ouço políticos em campanha autárquica falarem de mais barragens para mitigar o problema.
– Vejo jardins públicos de relva verdejante, regados diariamente com água potável
– Assisto a um carrossel de tratores com atrelados-cisterna ou carregados de depósitos a sugarem milhares de metros cúbicos dos parcos rios
– Reparo no enorme vazio de campanhas públicas – locais e nacionais – de sensibilização para a poupança de água

Por isso, meus caros leitores, há 3 verdades absolutas que gostaria de relembrar:

  1. Ao contrário do dinheiro, há uma coisa muito mais preciosa que nos cai realmente do céu: água! (muitos acham que ela pode vir também do subsolo… ora pensem melhor)
  2. Uma das principais consequências das alterações climáticas é, precisamente, a alteração do ciclo da água.
  3. As alterações climáticas não são apenas culpa do Trump, da América, ou da China. São o resultado cumulativo de cada um de nós (aqui, em Portugal, na nossa casa) das escolhas que fazemos, do nosso consumo obsceno, da inércia individual para alterar comportamentos, do comodismo.

Um climatólogo britânico resumiu muito bem a questão: “A grande ameaça não são as alterações climáticas, mas sim a forma como as estamos a ignorar.”

Está mais do que na altura de fazermos uma auditoria individual aos nossos hábitos domésticos, familiares e profissionais e começar a atuar em conformidade (num próximo post, tentarei ajudar com algumas ideias que nós próprios aplicamos aqui em casa).

E segurem-se. Isto vai começar a doer.

Nota: especialmente para os eternos negacionistas, trumpistas e outros “artistas” – mas também para todos os outros, aqui fica o resumo dos resumos (basta fazer scroll pelos vários gráficos): https://www.bloomberg.com/graphics/2015-whats-warming-the-world/

Que celebrarei quando tudo arde?

Este sábado, em plena vigência do estado de calamidade pública (finalmente decretado), acordei ao som de foguetes: uma qualquer freguesia aqui perto entendeu que estas coisas não eram para eles.

Foguetes_b

No passado mês de junho, uma outra aldeia deste concelho fazia exatamente o mesmo. Passavam poucas horas do anúncio dos 64 mortos em Pedrógão Grande, e o termómetro marcava 29 graus… às oito da noite.

Poucos dias depois da tragédia de Pedrógão Grande, durante a noite de S. João, no Porto, contei dezenas de balões lançados ao ar com a sua pequena ou grande chama (eram tantos, que a certa altura deixei de os contar). Como medida preventiva, estava então em vigor a proibição absoluta de os lançar… com multas de 5.000 euros para os prevaricadores.

Há uns anos, ainda eu vivia em Espinho, vi da janela do meu quinto andar lançarem uma generosa salva de foguetes durante um dia particularmente quente. Os pinheiros e eucaliptos mesmo ao lado da festa começaram a pegar fogo. Chegaram os bombeiros. Enquanto o fogo alastrava rapidamente e os bombeiros o combatiam, lançava-se nova e prolongada salva de foguetes. Sim, ao mesmo tempo. Sim, uma coisa ao lado da outra.

Em Ponte de Lima, durante um fim de semana num Turismo de Habitação, ainda eram os meus filhos muito pequenos, ouvi ali mesmo ao lado estourarem sessões intermináveis de foguetes. Pouco depois, no mesmo sítio, deflagrava um incêndio. Enquanto um helicóptero, com o respetivo saco de água, se esforçava em repetidos voos sobre as nossas cabeças, os foguetes continuavam. E continuaram… tarde e noite fora.

No primeiro caso que menciono, de sábado passado, e no caso de Espinho, apressei-me a telefonar para as autoridades – GNR e PSP, respetivamente. Fiz o que achei que qualquer cidadão consciente deve fazer, mas em ambas situações a minha denúncia foi recebida com alguma resistência, como se eu fosse uma criatura estranhamente importunada com algo tão natural.

Às vezes pergunto-me se não vivo num Estado-manicómio.
Porque é que somos tão tristemente incapazes de nos auto-controlar como sociedade?
Porque é que continuamos a tratar como tradicional e normal aquilo que é inequivocamente absurdo?
Porque é que continuamos a atuar como verdadeiros retardados mentais?
Porque é que as autoridades policiais parecem hesitar, quando deviam ser céleres e atuar firmemente?

Talvez a resposta se encontre no comentário de um amigo estrangeiro que, perante as minhas inquietações, diagnosticou: “tu não és verdadeiramente português”.

Mas isso não me deixa mais descansado.

Um desenho… para quem ainda não entendeu.

Muito se tem falado do eucalipto.
Quem percebe realmente do assunto afirma há décadas que:

  • … o eucalipto é altamente inflamável
  • … é de combustão extremamente rápida
  • … é capaz de projetar matéria incandescente a várias centenas de metros, muito mais do que qualquer outra espécie
  • … consome grandes quantidades de água
  • … reduz dramaticamente a biodiversidade quando plantado em regime de monocultura
  • … as suas folhas, ramos e cascas não se degradam com facilidade, gerando mais toneladas de matéria inflamável
  • … esgota os nutrientes do solo

E no entanto, a área de eucalipto no nosso país tem vindo sempre a aumentar até ao ponto do absurdo.

Diz-se que quando alguém não percebe uma ideia, é melhor fazer-lhe um desenho.
Assim, hoje de manhã desenhei um eucaliptal da forma mais objetiva possível:

desenho1

Introdução ao blog… em jeito de timeline

Muitos dos que irão ler este post (a maior parte, seguramente), conhecem-me apenas como fotógrafo profissional: o António Sá das reportagens, dos workshops, dos passeios fotográficos, das exposições.
Mas por baixo desta pele, e pulsando de forma mais intensa, sempre houve o outro António Sá – o naturalista, o ativista de causas ambientais… o mesmo cuja vida foi resumida pela filha da seguinte forma: “o meu pai pendurou-se numa ponte, foi preso e baleado pela polícia”.

Mas para que não se fique com ideias erradas, e para dar a conhecer o alter-ego que assina este novo blog, deixo aqui uma breve cronologia:

  • 1968: nasci em Espinho sem saber nada de ambiente nem do mundo onde me ia meter.
  • 1974-1983: passava temporadas em Viana do Castelo com os meus avós maternos. Aprendi a gostar da natureza no rio Lima, nas praias gélidas de Carreço e Afife, nos passeios de caça com o meu avô – onde ele não caçava nada só para me ensinar coisas.
  • 1979: um acampamento na serra da Freita, Arouca, fez acontecer a minha foto nº1 – uma queda de água no Rio Caima. A natureza encontrava-se com a fotografia pela primeira vez na minha vida. Fiquei viciado (e ainda estou).
  • 1982: tinha 14 anos quando um caçador me apontou a arma e disse para sair dali senão dava-me um tiro. Ele estava a caçar pombos domésticos em zona proibida; eu sabia a lei da caça de cor (graças ao meu avô) e não resisti a questioná-lo. Fui resgatado pelo Pedro G., então já um responsável universitário, que me rebocou pela gola da t-shirt dali p’ra fora.
  • 1987: uma namorada dinamarquesa ofereceu-me uma t-shirt da Greenpeace… da qual eu já era membro.
  • 1990: acabei o curso em Gestão Hoteleira a perguntar-me porque é que o tinha feito.
  • 1992: casei com a única razão verdadeiramente válida para ter feito hotelaria: a Ana, que conheci durante o curso, animou ainda mais a minha veia ambientalista mas também soube refreá-la a tempo, quando a coisa se tornou demasiado séria.
  • 1993: eu e a Ana passámos a integrar a Quercus… em grupo somos sempre mais fortes!
  • 1993-2000: promovi, em nome da Quercus, inúmeras sessões de sensibilização ambiental em escolas básicas e secundárias… por pura carolice, sempre que tinha tempo livre.
  • 1994: idealizei e concretizei um protesto contra a incineração de resíduos sólidos no Grande Porto. Isso implicou pendurar-me do tabuleiro superior da ponte D. Luís para desenrolar uma faixa vertical de 50 metros (e eu tenho tanto medo de alturas!). Acompanhou-me na descida o meu amigo Bruno, e a controlar as cordas de alpinismo o meu amigo Pedro P.. A Ana estava também lá, claro, e só não desceu porque o vento tornou tudo muito complicado. Fomos abertura de 4 telejornais (de todos os canais da época).
  • 1995: depois de 4 anos como delegado de informação médica – sim, é verdade – tornei-me repórter freelance (e não bastava a fotografia, tive também de aprender a escrever peças jornalísticas)
  • 1995-2007: viagens, viagens, viagens… afinal era um verdadeiro repórter freelance! Mas sempre com olhar muito atento às questões ambientais: dos orangotangos do Bornéu às tartarugas de Cabo Verde, dos troncos gigantes serrados na Amazónia, ao consumismo exacerbado de Nova Iorque.
  • 1998: com outros ativistas, encerrei a cadeado o acesso a uma lixeira ilegal em plena zona dunar, responsabilidade do próprio município de Espinho. Entregámos as chaves do cadeado à então ministra do ambiente, Elisa Ferreira, frente a um batalhão de jornalistas, enquanto esta inaugurava a ETAR do concelho (desgraçadamente também construída em cima das dunas!). O presidente da câmara ficou da cor do meu fato-macaco: branco!
  • 1999: uma viagem de 5 meses leva-nos até à China, Mongólia e Coreia do Sul. Quase sempre entre minorias étnicas e gente humilde, consolidámos o nosso respeito pelos povos que vivem em harmonia com a natureza
  • 2000: numa ação conjunta da Greenpeace e da Quercus para impedir a entrada de madeira tropical ilegal em Portugal, prendi-me à ponte móvel do porto de Leixões. A ponte não levantou, o navio não passou e teve de atracar noutro cais. Fui detido, passei a noite na esquadra e fui a tribunal na manhã seguinte: saí com termo de identidade e residência e fiquei temporariamente impedido de sair do país (mas safei-me da pena efetiva de 6 anos de cadeia por “desvio de embarcação”). A Ana, grávida de 6 meses do nosso primeiro filho, pediu-me para não me meter mais vezes nestas alhadas. Eu acatei.
  • 2000: nasce a minha filha e passei a portar-me bem.
  • 2000: pouco depois, o meu carro foi baleado pela Polícia Judiciária na marginal de Gaia, enquanto eu conduzia em direção ao Porto. A bala entrou mas não me atingiu. Mas isto não tem nada a ver com o meu ativismo… é só mais uma história (era uma bala perdida quando tentavam alvejar o último elemento de um gangue, que infelizmente fugiu na minha direção).
  • 2003: nasce o meu segundo filho – passei a portar-me ainda melhor
  • 2004-2010: dediquei-me de corpo e alma às reportagens, workshops, passeios fotográficos, viagens fotográficas, procurando incutir, de forma tão subtil quanto persistente, preocupações de cariz ambiental nos meus leitores, alunos e clientes.
  • 2010: mudei-me com a família para uma aldeia do Nordeste Transmontano: um sítio sem eucaliptos onde ainda reina a floresta autóctone e, graças a ela, uma impressionante biodiversidade – o melhor sítio de Portugal. Já merecia isto há muito tempo!
  • 2017: nasce este blog com a pretensão de fazer de cada leitor um ativista no dia-a-dia: é pegar ou largar (mas aviso já que neste crescendo de alterações climáticas, largar é morrer!).

Havia muito mais para contar, mas o essencial do perfil está apresentado. Agora, é seguir os posts que aí vêm – coisas verdadeiramente sérias que eu desejo explicar num constante exercício de liberdade provocatória… como nos bons velhos tempos.